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Startups e investimento-anjo: entrevista com Camila Farani

Conhecida do grande público por sua atuação como jurada no Shark Tank Brasil, Camila Farani é uma legítima empreendedora serial. Começou essa caminhada ainda na adolescência, revitalizando a tabacaria da família. Mais tarde, criaria outros negócios, como o Grupo Boxx (alimentação) e FizCon (inovação). Em 2016, recebeu o prêmio de Melhor Investidora-Anjo no Startup Awards. De 2016 a 2018, presidiu o Gávea Angels – um dos mais conhecidos grupos de investidores-anjo no Brasil. Também possui destacada atuação no incentivo ao protagonismo feminino, sendo cofundadora do MIA – Mulheres Investidoras Anjo. Mais recentemente, fundou a boutique de investimentos G2 Capital, a fim de seguir apostando em startups. Camila é advogada com pós graduação em Marketing e especializações em empreendedorismo e inovação por Stanford e MIT. A seguir, confira sua entrevista ao portal IT Management.

 

Conte-nos sua trajetória profissional.

Camila Farani: jovem, mas veterana no mundo das startups

Camila Farani: empreendedora e investidora jovem, mas já veterana no mundo das startups

Comecei aos 16 anos na tabacaria da família, quando minha mãe ficou viúva e não tinha dinheiro para pagar funcionários. Propus algumas mudanças no empreendimento e pedi participação na empresa caso conseguisse aumentar o faturamento em 30%. Atingi 28%. Mas ganhei o que queria, porque minha mãe destacou algo que levo para a vida toda: minha capacidade de execução. Depois abri outros negócios, gerando receita recorrente, e empreendi novamente no ramo da alimentação saudável – criei um fast food saudável. Foi um começo complicado, mas que deu tão certo que fui convidada dirigir um projeto na Mundo Verde. A experiência como executiva me deu muitas lições – a maior, que a vida enfurnada num escritório não era para mim. Eu gosto de operação, de ver as coisas acontecendo. Então um amigo me levou para uma reunião no Gávea Angels, grupo de investidores brasileiro dos mais antigos e respeitados. Quando deparei com negócios nascentes de tecnologia – as chamadas startups – e de áreas como e-commerce e aplicativos, não tive dúvida. Pensei imediatamente: “É nisso que quero investir meu tempo e energia”. Foi quando decidi me tornar uma investidora-anjo.

 

Desde então, o que você tem visto e como avalia a evolução deste formato de investimento no Brasil?

Costumo comentar que vejo um amadurecimento do nosso mercado nacional de startups. Os pitches estão cada vez melhores, e os empreendedores estão trazendo ideias para o que realmente precisamos resolver na sociedade. Já passamos por várias fases daquilo em que os investidores-anjos costumam investir. Não são apenas os empreendedores que devem buscar qualificação – nós, investidores, também. Existem grupos de investidores no Brasil inteiro que se encontram periodicamente para discutir boas práticas visando ao desenvolvimento da categoria. Investir requer um conhecimento que vai muito além de colocar dinheiro e medir a porcentagem de lucro. Tanto é que eu mesma fundei a minha boutique de investimentos, a G2 Capital, recentemente. Veja bem, eu disse “boutique”. No mundo inteiro, quando um segmento do mercado sinaliza que há protagonistas preferindo exclusividade de atuação, o caldeirão está fervendo. Temos um belo caminho pela frente para profissionalizar os investidores-anjos. Com a popularização do termo, com a redução no valor dos aportes para você ser considerado um. E com uma nova realidade na taxa de juros, que está obrigando o brasileiro e reaprender a investir.

 

O papel do investidor-anjo vai além do investimento econômico, correto? Em sua opinião, quais as principais contribuições que podem ser agregadas na relação com as startups?

A ideia é que se traga o capital inteligente para as startups. Isto é: que, além do financeiro, o anjo traga sua experiência para alavancar a investida. Mas há uns mais ativos e outros passivos, que preferem aportar o capital com mais gente para mitigar o risco. Descobri que posso, além de investir, contribuir com meu intelecto e minha rede de contatos. Troca de conhecimento, ampliação e fortalecimento de networking geram resultados tão incríveis quanto uma injeção financeira. Se o investidor-anjo colocar em jogo esses três itens – capital, experiência e contatos – o impacto positivo da contribuição é imensurável.

 

O que você costuma levar em conta ao analisar uma startup?

Numa época, eu perguntei por aí o que elas próprias achavam que eu levava em conta para apostar em startups. A maioria pensa que seria uma ideia incrível, o potencial de retorno… Eu analiso, sim, claro. Mas todos ficam incrédulos quando respondo que, em primeiro lugar, é o fator “pessoas”. De que adianta um bom plano de negócios, um empreendimento revolucionário, se não tiver quem coloque a mão na massa? Acredito no poder da realização, mas é impossível uma entrega dentro das expectativas de um investidor sem uma execução impecável.

 

Em sua opinião, quais as características e habilidades essenciais a um gestor?

Ele precisa ter energia e ser engajado. Eu enfatizo engajamento porque vem de dentro para fora. Uma pessoa engajada faz acontecer. A que se diz “comprometida” está fazendo uma atividade como um “compromisso”, uma obrigação. Ou seja, é uma pressão de fora para dentro. O comportamento e o equilíbrio emocional de um gestor devem ser levados em conta. Afinal, ele certamente enfrentará situações delicadas, que exigirão muita destreza e sabedoria. E tudo isso impacta diretamente a equipe. Uma empresa é reflexo da personalidade de seus líderes. E se o gestor souber administrar as demandas, delícias e desafios do trabalho em grupo, tanto melhor.

 

Você tem alguém que lhe serve de inspiração?

Reid Hoffman, fundador do LinkedIn, e Oprah Winfrey.

 

Do que você acredita que dependa o sucesso de uma startup?

De ter uma ideia empolgante para resolver um grande problema, de difícil resolução, e levá-la a um mercado maior ainda. Os problemas fáceis já haverá gente querendo resolver. Não deve ser o foco das startups. Com pessoas aptas, qualificadas e engajadas que consigam executar o trabalho, já temos uma alta probabilidade de sucesso.

 

Fale sobre os diversos perfis de empreendedor.

Felizmente, o leque de opções para classificar um empreendedor cresceu, pois cada tipo atende a uma função específica na sociedade. Há o empreendedor informal, que geralmente empreende por necessidade. O cooperado, que é muito comum se unir a outros do mesmo ramo para diminuir custos e riscos. O individual, que teve um recente boom com a criação do MEI (Microempreendedor Individual), tirando milhões da informalidade. O empreendedor de franquias (envolve franqueado e franqueador – que são, sim, formas de empreender). E o social – aquele que toma iniciativas com o objetivo de tornar o mundo um espaço melhor para todos. A lista não acaba por aí… Ainda temos um tipo de empreendedor que – por incrível que pareça – tem carteira assinada: o intraempreendedor. É o empreendedor que faz acontecer dentro das empresas e que têm como motivações conseguir bônus e subir na carreira. No setor público também temos alguns perfis de empreendedores. São aqueles que buscam fazer bom uso do nosso dinheiro, legitimar e moralizar a função. E, por último, o meu preferido e aquele em que mais acredito… O empreendedor por estilo de vida, que gosta do que faz e não se vê fazendo outra coisa.

 

Existe uma receita ideal para criar um modelo “infalível”?

Existe e ela se chama trabalhar.

 

Startups e investimento-anjo: Camila com os demais jurados do Shark Tank Brasil

Camila Farani (de vermelho) posando com outros jurados do Shark Tank Brasil

 

Como você define o Shark Tank Brasil? Fale sobre sua experiência no programa e a função de difundir conceitos de investimento, mercado e negócios no país.

Sabe aquelas entrevistas em que um artista diz que determinado papel “foi um presente”?! Acho que desta vez eu posso fazer uso, porque é assim que eu me sinto (risos)! Sou fã da versão americana e, assim que a Sony me chamou para fazer participações na primeira temporada, fiquei empolgada. Tudo porque sei que a emissora é muito criteriosa, não apenas na seleção dos empreendedores, mas também dos jurados. Pude ser eu mesma, desde a primeira vez em que eu pisei no estúdio. Então me sinto uma privilegiada por proporcionar a empreendedores que realizem seus sonhos, por poder dizer que eles são capazes. Fazer parte da terceira temporada é uma alegria por ser um indicador de sucesso que o programa atingiu. Ele representa um meio de potencializar meu trabalho de educação empreendedora no país. Muita gente não sabia o que era investimento-anjo até o Shark Tank (embora seu formato não seja de investimento-anjo). Nem tinham ideia de que havia pessoas que investem em ideias para fazê-las se tornar realidade. E muito menos que há um trabalho muito duro por trás. Aí está a função educacional, utilizando como recurso um meio de entretenimento – a televisão – de grande poder no Brasil.

 

Como você avalia o mercado brasileiro hoje? Quais são suas áreas favoritas e quais você acredita que devem atrair maiores investimentos daqui para frente?

Todas as que envolvem inovação e tecnologia para solucionar problemas reais da sociedade. Nesse sentido, vejo que todas as áreas serão impactadas e relevantes.

 

Quais foram seus maiores aprendizados na vida profissional até o momento?

Que eu só seria uma boa profissional se, antes, fosse um bom ser humano. E isso envolve desenvolver as inteligências física, mental, emocional e espiritual.

 

Fotos: Divulgação
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