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Mito ou realidade? Ciência desfaz crenças sobre o cérebro

Mapear o cérebro, estabelecer conexões neurais entre humanos e Inteligência Artificial e fazer upload de mentes para computadores. Mesmo soando como ficção – ao melhor estilo Altered Carbon, da Netflix – essas e outras possibilidades já são exploradas pela tecnologia. Contudo, a despeito dos avanços na área, muitas ainda são as dúvidas sobre o cérebro humano. Portanto, antes de sabermos se um dia será possível digitalizar a mente, é importante desmistificar algumas lendas tratadas como verdades.

O cérebro humano – com toda sua complexidade – vem sendo alvo de estudos desenvolvidos ao longo de séculos. Mesmo assim, pouco se sabe ou se confirma sobre todos os segredos da mente. A exemplo das fake news, algumas pesquisas podem ter sido distorcidas quando foram disseminadas no passado. Outras, ainda, não tiveram seus resultados comprovados quando refeitas em outras ocasiões. Por isso, buscar fontes confiáveis é essencial para a propagação do conhecimento.

 

SEIS CRENÇAS JÁ DERRUBADAS SOBRE O CÉREBRO

 

1. Crianças que ouvem música clássica se tornam mais inteligentes

Publicado pela Universidade da Califórnia em 1991, um artigo científico deu origem ao termo “efeito Mozart”. Baseada numa experiência com 36 estudantes, a pesquisa buscava testar uma habilidade visual espacial específica dos participantes. Para tanto, foram envolvidos dois grupos numa determinada atividade mental. Antes de realizá-la, alguns estudantes ficaram em silêncio, enquanto outros ouviram Mozart por 10 minutos. Por fim, aqueles que escutaram música clássica se saíram melhor no teste.

Esse resultado inspirou o mito de que crianças que ouvem música clássica se tornam mais inteligentes. No entanto, além do baixo número de participantes (que limita a efetividade da experiência), nenhum deles era criança. Assim, quase 20 anos depois, vários estudos nessa mesma linha foram reanalisados. Em 2010, constatou-se que ouvir música ou outro tipo de conteúdo teria um impacto mental de curto prazo. No entanto, não foram encontradas evidências para sustentar uma possível influência permanente no quociente de inteligência (QI) das pessoas.

 

2. O ser humano usa apenas 10% da capacidade do seu cérebro

Esta é uma das teorias que mais ganhou popularidade e, ao mesmo tempo, a mais fácil de ser desfeita. A partir de uma ressonância magnética, é possível observar que simples tarefas (como falar) ativam mais de 10% da mente. A origem do mito está relacionada a várias questões. Entre elas, um estudo clássico de William James, The Energies of Men (1908). Nele, o psicólogo afirma que o homem utiliza apenas uma pequena parte da capacidade cerebral. No entanto, o percentual não é especificado na pesquisa.

Novamente, outra possibilidade é a falta de compreensão do complexo campo da neurociência. Afinal, os neurônios da massa cinzenta, responsáveis pelo poder de processamento do cérebro, correspondem a 1/10 das células cerebrais. As outras, conhecidas como células gliais (massa branca), não ajudam no poder de processamento. Suas funções são as de oferecer apoio e nutrição aos neurônios.

 

3. Você pensa com o lado direito ou esquerdo do cérebro?

Dizem que pessoas intuitivas costumam usar o lado direito do cérebro, enquanto as analíticas utilizam mais o hemisfério esquerdo. No entanto, a suposição de que um dos lados do cérebro tem influência na personalidade é um mito. O assunto foi objeto de estudo da Universidade de Utah, nos Estados Unidos. A pesquisa examinou cada par de 7.266 regiões do cérebro em mais de mil indivíduos, enquanto eles executavam pequenas tarefas. No entanto, não foram encontradas evidências claras para sugerir que os participantes estavam ativando mais fortemente um dos lados.

O fato é que algumas funções cerebrais encontram suporte maior em determinado hemisfério. Como no caso do idioma, que é predominantemente controlado pelo lado esquerdo. Entretanto, aspectos da comunicação como a modulação de voz, por exemplo, são guiados por regiões do lado direito. Isso significa que um simples bate-papo suscita reações complexas em ambos os hemisférios cerebrais.

 

4. Você pode aprender outras línguas enquanto dorme

Aprender outro idioma ou absorver quaisquer novos conteúdos enquanto dorme pode ser o sonho de qualquer pessoa. Contudo, a possibilidade já foi considerada improcedente em 1956, por meio de um experimento de Charles Simon e William Emmons. Na ocasião, eles não encontraram nenhuma evidência de que seria viável adquirir conhecimentos durante o sono.

Já em 2014, o estudo de Thomas Schreiner e Björn Rasch chegou um pouco mais próximo da questão. Segundo os pesquisadores, a capacidade de memorizar um vocabulário pode ser potencializada durante um período de movimento ocular mais lento. Ou seja, ao acordar ou próximo da hora de dormir. Ainda assim, a margem de melhoria foi pequena.

 

5. O álcool mata as células do cérebro

Diversas pesquisas sugerem que o álcool pode gerar um importante impacto negativo no comportamento das células. No entanto, o volume da substância presente em bebidas legalizadas não é capaz de “matá-las”. O álcool, na verdade, altera as ligações entre os neurônios, afetando a forma como as células se comunicam.

Em 1993, Grethe Jensen comparou amostras de neurônios de pessoas que consumiam álcool e que não consumiam. Os resultados não mostraram diferenças perceptíveis no número ou na densidade de células do cérebro. Diferentemente das drogas, que agem em regiões específicas do cérebro, o álcool atua no órgão todo. Outro estudo, publicado na revista Neuroscience, descobriu que quantidades moderadas de álcool alteram a produção de novos neurônios no hipocampo. O processo é chamado de neurogênese e pode ter efeito na aprendizagem e na memória.

 

6. Dano cerebral é sempre permanente

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, nem sempre um dano cerebral será permanente. Com o avanço das pesquisas, descobriu-se que um dos feitos notáveis deste órgão é a regeneração. Assim, em determinadas circunstâncias, é possível que ele consiga se recuperar de uma lesão, dependendo da localização e da gravidade. Uma concussão pode representar apenas uma interrupção temporária das funções do cérebro. Assim, contanto que não haja traumatismo posterior na cabeça, o cérebro pode se recuperar completamente. Ele também consegue se adaptar a lesões ainda mais graves, num processo denominado neuroplasticidade. Trata-se da capacidade do cérebro de redirecionar suas funções desativadas por condições mais sérias, como um acidente vascular cerebral.

 

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Ilustração: iStock/Jolygon
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