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Alexandre Grenteski fala sobre TI, carros e Inovação Aberta

Com 20 anos de atuação em TI, Alexandre Grenteski declara-se um profundo apaixonado por novas tecnologias e Inovação Aberta. Também por startups, empreendedorismo, inovação corporativa e social, novos negócios, carros elétricos e conectados, mobilidade, conectividade e muito mais. Durante sua trajetória profissional já formatou computadores, implantou servidores, gerenciou contratos, projetos e pessoas. Foi Secretário Técnico do CIO LatAm da Aliança Renault-Nissan, da qual é agora o coordenador de Open Innovation. A seguir, confira sua entrevista ao portal IT Management.

 

Como ocorreu sua escolha pela Tecnologia da Informação?

Minha carreira em TI digamos que “aconteceu”… Ao 14 anos, na hora de iniciar o então conhecido como Ensino Médio, meu pai, um funcionário público de toda vida me disse: “Você tem que ter uma profissão! Não vai só estudar para o vestibular”. Então, de tudo o que eu tinha tido oportunidade de contato até aquele momento, a tal informática me parecia a mais legal. Assim, fiz um curso Técnico em Processamento de Dados. Já aos 17 anos, no momento de escolher a profissão que seguiria “para o resto da vida”, me pareceu lógico continuar nesta área, pois havia gostado da primeira experiência. O curso de Bacharelado em Análise de Sistemas foi algo interessante. Ao final, a pressão por ir além da graduação me levou automaticamente a uma especialização, desta vez em Desenvolvimento WEB. Ambos os cursos eu fiz na PUCPR.

 

Na sua opinião, o que é preciso para se diferenciar nesta área?

Durante muito tempo fiquei longe das salas de aula tradicionais acadêmicas, focando em desenvolvimento de idioma e técnicos específicos. Consegui meu certificado de proficiência em língua inglesa e 10 certificações Microsoft. E acredito que isto é o que pode ter sido, àquela época, o diferencial do meu perfil frente aos concorrentes. Interessante perceber o quanto esta questão tem mudado, especialmente no meio de Tecnologia da Informação. Estou longe de dizer que a graduação tradicional não tem valor, mas cada vez mais as empresas têm buscado perfis e skills que se desenvolvem fora destes ambientes.  As universidades estão percebendo isto e mudando seus currículos. Mas levarão algum tempo, com certeza, para chegar a atender esta nova demanda. Hoje os diferenciais são muito mais ligados à adaptabilidade, capacidade de trabalho em equipe e em ambientes totalmente voláteis.

 

Conte sobre seu envolvimento com a Inovação Aberta (Open Innovation).

Eu comecei com Inovação Aberta quando Secretário Técnico do CIO LatAm da Aliança Renault-Nissan, em uma época em que o termo não era assim tão conhecido. Lembro-me claramente do dia em que o Angelo Figaro me orientou: “vamos ver o que esse negócio de inovação pode ter a ver conosco”. Naquele dia eu tive certeza que minha carreira como Secretário Técnico não seria mais a mesma. Ou melhor, brinco que fui o pior ‘SecExec’ da história da companhia (risos), pois eu só dei ouvidos àquela orientação da inovação.

Desde 2014 tenho participado de todas as formas do ecossistema de inovação de Curitiba, mas não apenas aqui. Acho que participei de todos os hackathons, inúmeros meetups e na organização de diversos eventos relacionados ao tema. Também iniciei um processo de descoberta dos demais principais ecossistemas brasileiros, em especial São Paulo, Florianópolis e Recife. Em algum momento descobri que os que faziam o que eu estava fazendo, ou seja, fomentando e impulsionando as empresas ao contato com os institutos de inovação, pesquisa e ensino (universidades) mais as startups e o seu ecossistema empreendedor, denominavam-se Open Innovators.

 

O que representou para você ter sido a primeira pessoa a colocar esta designação no Linkedin dentro da Renault do Brasil.

No desenho de nosso programa de transformação digital, iniciado em 2017, criamos esta função (Open Innovators) e desde então a ocupo. Acho até engraçado a reação das pessoas quando leem num perfil do LinkedIn “Open Innovation e Renault” em uma mesma página. Parece realmente algo que não combina. Mas é real, estamos fazendo Inovação Aberta de verdade na Aliança Renault-Nissan-Mitsubishi. Lógico que enfrentamos toda sorte de dificuldades que toda grande empresa como a nossa pode oferecer. É algo muito cultural, muitas áreas precisam compreender os benefícios e entender o valor deste tipo de relacionamento. Mas estamos em uma boa trajetória.

 

Quais são os principais desafios e as principais vantagens de trabalhar com a Open Innovation numa empresa como a Renault?

Se pegássemos um checklist de todos os desafios possíveis para se trabalhar Inovação Aberta em qualquer grande empresa, certamente eu poderia marcar todos os itens. Eu sempre digo que o nosso produto é bastante especial. Pois não se trata de um sapato que descostura, uma camisa que solta um botão ou um eletrônico que perde alguma funcionalidade. Produzimos um carro. Algo que, mal construído ou mal-utilizado, mata! Isso nos tornou uma empresa absolutamente rigorosa em termos de gestão de riscos. Nada pode dar errado. Somos excepcionalmente bons em construir e seguir processos que geram resultados conhecidos. O “novo” não é algo que nos deixa muito confortáveis. Mas eu posso afirmar que é exatamente isso que gera a minha lista de vantagens também. Focamos em inovações direcionadas à nossa transformação digital. Não sendo o objetivo, neste momento (risos), tocar produtos e serviços. Nós somos uma empresa que tem milhares de funcionários e que produz um carro a cada minuto, que pode (e precisa) se reinventar, se atualizar e se transformar.

 

A Open Innovation prioriza um bom modelo de negócio em detrimento àquela concorrência por quem será o primeiro a lançar determinado produto no mercado, certo? Na sua opinião, o que é essencial para mudar esta cultura dentro de empresas tradicionais?

Eu penso que Open Innovation trata-se principalmente de se estabelecer parcerias. Novos modelos de relacionamento que vão nos ajudar até a sermos os primeiros a lançar determinados produtos no mercado. Pois quando estamos falando em trazer inovações para dentro da Aliança, podemos estar transformando um processo ou até criando um novo produto. Isto é realmente cultural. Levamos bastante tempo em processos de “digitalização” dos nossos principais stakeholders. Mas a cada iniciativa em que conseguimos inserir inovação aberta, avançamos muitos passos. O importante é ter em mente que a mudança, especialmente em ambientes tradicionais, acontece pelo exemplo. Acontece por insistência. E tudo é sobre valor. Os stakeholders, as áreas clientes, precisam compreender/perceber o valor que as ações gerarão para a companhia.

 

As pessoas costumam relacionar inovação com algo totalmente novo e tecnológico. Para você o que é inovação e em quais áreas ela pode e deve ocorrer dentro de uma empresa?

É supercomum, mesmo, as pessoas esperarem invenções quando falamos de inovação. Para mim, inovação está diretamente relacionada a resolver problemas reais. Uma inovação pode ser um processo, um produto ou algo disruptivo que ponha abaixo processos e/ou produtos. E ela deve e precisa ocorrer em todas as áreas. A tecnologia torna as inovações escaláveis mais facilmente. Se conseguimos automatizar um processo ou se criamos uma aplicação que resolve um problema real de vários sites, podemos facilmente fazê-la chegar a vários países. E mesmo estando em plena revolução digital, é absolutamente comum encontrar processos burocráticos e analógicos em todas as empresas. Acredito que por isto o tecnológico/digital é tão esperado.

 

Como funciona o programa de inovação implantado na Renault Brasil?

Nosso programa de inovação na TI começou em 2012, quando contratamos a FIEP para nos apoiar nesta construção. Era um momento onde realmente não tínhamos muita ideia de onde estaríamos nos metendo. Mas tínhamos vontade e o apoio total do nosso CIO. Quando olhamos para trás fica clara a curva de maturidade que construímos e como chegamos até aqui.

A primeira versão do programa de inovação tratava-se de uma plataforma para que os colaboradores pudessem expor suas ideias. Era basicamente um site onde se registrava a ideia, o impacto e a abrangência, e que gerava pontos para serem trocados por recompensas. Foi um ano sensacional. Duzentas ideias criadas, praticamente 90% da TI envolvida em conceitos inovadores. No entanto, implantamos apenas uma das ideias.

Precisávamos rever nosso modelo e, para o segundo ano, o motor era “tire suas ideias do papel”. Naturalmente tivemos menos propostas inseridas na plataforma. Ao mesmo tempo, tivemos algumas implantações a mais. Porém, ainda era algo muito “caseiro”, com sugestões que agiam essencialmente dentro da própria TI. Queríamos gerar impacto no negócio e, para o ano seguinte, este era o novo motor. Novamente um pouco menos de ideias inscritas, outras poucas menos implementações, mas começamos a interagir com as áreas clientes para inovar também com eles.

Outra vez, em processo de constante evolução, revimos nosso modelo e decidimos implementar conceitos de POC e POT (Proof of Concept e Proof of Technology), pois nossos analistas relatavam pouco envolvimento genuíno das áreas. Pensamos então em dar mais autonomia para a TI, fazendo com que o cliente apenas se comprometesse a validar o resultado da POC ao final do processo. Neste momento creio que foi nosso melhor acerto. Com 63 POCs implementadas e validadas conseguimos valores realmente expressivos de Business Value.

Creio que como uma evolução natural, este programa de inovação passava a ser um Programa de Transformação Digital, que hoje já é uma área e que possui recursos dedicados à continuidade dos princípios de lá do começo: cultura, exploração e experimentação tecnológica e inovação aberta/parcerias.

 

Quais as principais vantagens da colaboração entre empresas tradicionais, startups e centros de pesquisa/universidades?

Para mim, este é o princípio da inovação aberta: a colaboração e a parceria entre todos estes agentes. Centros de pesquisa e universidades geralmente servem como o primeiro estágio de geração de tecnologias e inovações. Quando isto tem potencial de mercado acaba virando uma startup, que vai impactar as empresas e o próprio mercado. Logicamente startups podem surgir em qualquer lugar, mas em ambientes acadêmicos podemos encontrar os ambientes mais acolhedores para empreendedores iniciantes e que precisam de muita ajuda. As incubadoras e aceleradoras mais bacanas que conheci estão de alguma forma ligadas a estes locais. Também temos no Brasil uma série de incentivos para o desenvolvimento de tecnologias em programas que unem empresas e centros de pesquisa e universidades, o que facilita bastante a aprovação de projetos.

 

Como você vê o desenvolvimento e a aplicação de novas tecnologias no Brasil?

No Brasil não somos exatamente famosos por inventar muitas novas tecnologias. Gosto sempre de dizer que brasileiro é bom mesmo em se adaptar e em resolver problemas de maneira pontual. Tropicalizamos muitas coisas. Soluções e modelos de negócios criados fora são multiplicadamente espalhados para os mais diversos seguimentos de mercado. Claro que temos excelentes criações “brazucas”, mas, concordemos, são exceções, infelizmente.

Mas vamos lá, esta capacidade de colocar no mercado soluções que resolvem de verdade os problemas das pessoas e que são sempre evoluídos após validação é algo muito legal que temos aqui.

 

O mercado já tem sentido as mudanças ocorridas nas relações de consumo das novas gerações. Para você, o que é preciso levar em conta na hora de criar produtos e buscar a inovação?

Eu vejo esta mudança nas relações de consumo como algo absolutamente natural e, por que não, cíclico. Meus pais compraram carros diferentemente daqueles adquiridos por meus avós. Eu fiz diferente deles e meus filhos, com certeza, consumirão de outra forma. Usei esse exemplo, mas que também é válido para imóveis e outros bens duráveis. No entanto, não quer dizer que isto não acabe voltando em algum momento. É um pouco confuso, sim, mas eu sempre digo que é provável que alguém tenha que “possuir” o que você queira “usar”. O que pode nos levar a formatos de gerações anteriores…

O que de certa forma responde o que eu penso sobre o que é preciso ter em mente para buscar inovação: o cliente. Não há outra forma de criar inovação se não houver um cliente disposto a pagar por ela. E este cliente tem momentos diferentes de vida. Cada solução precisa ter em mente exatamente quem é o seu cliente e em que momento ele está. Só assim conseguirá criar uma solução consumível. Temos diversos exemplos de soluções criadas para nichos superespecíficos e que hoje já são usados por todos, mas a consolidação precisa acontecer em púbicos capazes de ver valor na proposta.

 

Como você o futuro da mobilidade e do transporte no Brasil e no mundo?

Este é um exercício de futurismo para o qual não acredito estar totalmente pronto ainda, (risos). Mas até que se crie um teletransporte (que eu insisto veementemente não se tratar de um produto de mobilidade, mas de beleza… Ora, se eu posso desmaterializar alguém aqui e reconstruí-lo ali, porque não posso fazer alguma “mudança”, um Photoshop, no caminho?), as pessoas precisarão se mover de pontos ‘A’ para pontos ‘B’. Se isto vai ser via carros voadores, tubos ou flutuação, ainda não sei. Na Aliança Renault-Nissan-Mitsubishi estamos construindo o próximo passo: os carros elétricos, autônomos e conectados. Um passo de cada vez, né?

Outro ponto importante é que mobilidade não se trata apenas de carros/bicicletas/transporte público. Vi numa palestra recentemente um diretor de um grande grupo editorial dizendo algo que superconcordo: mobilidade é política pública, é hábito de trabalho e consumo. É poder ter diferentes classes laborais com horários diferentes de trabalho, horários diferentes de funcionamento de estabelecimentos e ações que façam com que não estejamos todos indo para um mesmo ponto em um mesmo horário quando a pista contrária está vazia. Trabalho remoto é mobilidade. Relações de supervisão e preparação de gestores para lidar com equipes dispersas é mobilidade. Acredito realmente nisso. Mas espero ter um carro elétrico, conectado e autônomo num futuro próximo!

 

Foto: Alexandre Gretenski/Acervo pessoal
Categorias Ping-Pong