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Futurismo: Lala Deheinzelin explica as novas economias

Claudia Deheinzelin, mais conhecida por Lala Deheinzelin, é um dos principais nomes do futurismo na América Latina. Nascida em São Paulo, é pioneira em economia criativa como estratégia de desenvolvimento e sustentabilidade no Brasil. Autora do livro “Desejável Mundo Novo” e coordenadora do movimento Crie Futuros, possui trabalhos em quatro continentes. Sua atuação já lhe rendeu a indicação da P2P Foundation como uma das 100 mulheres que estão ajudando a criar uma sociedade colaborativa. Neste bate-papo com o Portal IT Management, Lala aborda questões ligadas a futurismo e detalha conceitos como os da fluxonomia.

 

Fale sobre sua trajetória profissional e como teve início sua relação com o futurismo.

Lala Deheinzelin

Minha origem profissional vem do setor cultural, do teatro e da dança, mas minha experiência é muito vasta e diversa. Ao longo dessa trajetória, passei por todos os setores organizacionais. Corporações, Terceiro Setor, governos e instituições de fomento como o Sistema S, pela Cooperação Internacional. Já na economia criativa, com esse nome, entrei em 2004. Naquele ano ocorreu no Brasil a XI Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. Desde então o sistema ONU percebeu uma estratégia de desenvolvimento que ainda não tinha sido contemplada. Assim, trabalhei na agência ligada ao PNUD (unidade de cooperação sul-sul), que estava fazendo o trabalho de articulação com outras agências do sistema ONU.

Comecei como assessora para todos aqueles que estão trabalhando com formulação de políticas e do que é novo. Como sou futurista e especialista nessa coisa tão nova de economia criativa e colaborativa, o meu trabalho é mostrar quais são as forças que estão moldando o futuro. Porque não podemos pensar o futuro a partir do presente. Precisamos entender o que está acontecendo de novo para poder criar um futuro condizente. De lá para cá, meu trabalho tem sido este.

Eu vejo quais são estas forças que estão moldando o futuro, quais são as oportunidades que elas apontam e, sobretudo, os “comos”. Uma vez percebidas essas oportunidades de futuro, como é que podemos nos preparar para lidar com elas? O caminho que percebo que é o mais presente no momento para ter um futuro sustentável é o caminho da economia criativa. Ou seja, da economia a partir de intangíveis e um caminho com processos colaborativos em rede, priorizando outras formas de gestão e muito uso das novas tecnologias.

 

Como se deu seu envolvimento com a economia?

Neste trabalho em quatro continentes, pude notar como era importante atualizar a ideia da indústria criativa para uma ideia de economia criativa mais ampla e mais inclusiva. Me dediquei a pensar na importância de desenvolver ferramentas para trabalhar com economia criativa. Especialmente por meio da sustentabilidade combinada com processos colaborativos em rede. Foi muito interessante, pois eu já era futurista desde a metade dos anos 90. Então, desenvolvi as ferramentas observando e sistematizando processos bem-sucedidos em várias escalas. De pequenos grupos criativos a políticas nacionais, a partir de quatro eixos. Visão de futuro, sustentabilidade, processos colaborativos e economia criativa. Acho que foi isso que tornou meu trabalho um pouco único e pioneiro não só no Brasil.

 

O que é a Fluxonomia 4D?

A Fluxonomia é um conjunto de metodologias e ferramentas para aplicar as novas economias e criar futuros. Chamei assim em função do foco estar no processo – e não no produto. Para mim, essa é a chave, pois tudo é “fluxo”, não é? A vida é fluxo, a cidade é fluxo de pessoas, a economia é fluxo de bens, a psicologia é fluxo de ideias. Quando você observa as coisas com esse olhar, fica mais fácil de entender. É a origem dessa visão sistêmica, sintética, integrada.

O objetivo da Fluxonomia é preparar as pessoas que serão facilitadoras desta transição. Isto dentro de governos, empresas ou instituições – porque ela serve para todo mundo. Ao mesmo tempo, oferecer este corpo de conhecimento, o processo de uso e a comunidade para aplicá-lo. E é disso que precisamos para fazer esta transição:

1) Um conjunto de ferramentas sintético, em vez de analítico. Um conteúdo que sirva a várias áreas e que seja de fácil acesso e compreensão.

2) Um processo de uso dessas ferramentas ao longo do tempo. Pois não adianta ter apenas o conhecimento, você precisa ter a aplicação dele.

3) Saber com quem nós vamos fazer esse processo de acompanhamento de uso das ferramentas. Com qual comunidade.

O conhecimento é uma combinação de estudos do futuro com as quatro novas economias: criativa, compartilhada, colaborativa e aquilo que eu chamo de “multimoedas 4D”. Trata-se de uma visão de que riqueza e resultados não são só moeda, mas recursos e resultados culturais, sociais, ambientais e financeiros.

 

O que se pode esperar do futuro?

Em relação ao futuro, é muito interessante notar que é quase inexorável. Cultura, conhecimento, criatividade, tecnologias, colaboração. Quem começa a trabalhar com essas coisas percebe que é como se fosse um universo paralelo. A gente vive em possibilidades extraordinárias que já estão acontecendo dessa combinação de economia criativa e colaborativa. Aí dá para perceber que um futuro de abundância é possível, sim.

O futuro muda muito e muito rápido, e suas possibilidades não são previsíveis. Não dá para primeiro planejar, tentar controlar, saber direitinho cada passo que eu vou dar. Porque quando eu acabei de fazer esse planejamento, o mundo já mudou e o meu planejamento não serve. Então o que está acontecendo é que todas as coisas se solucionam no fazer. Estamos no momento do fazer – e ele vai criando um ambiente em que essas coisas sejam possíveis.

 

Na sua opinião, o que é preciso para criar uma sociedade colaborativa?

É fascinante ver que, no geral, nos processos colaborativos, as relações de confiança acabam se instaurando. Na prática, percebemos que a ideia de que o ser humano não presta – que, se tiver oportunidade, vai roubar; que nosso principal motor é o lucro – é apenas uma cultura. Estamos imersos nela, mas não é assim. Até mesmo a natureza tem momentos de competição, mas ela é essencialmente colaborativa. E a prática é o que nos ajuda a mudar esta mentalidade. Se mudamos a mentalidade, todo o resto entra no lugar.

Então eu diria que o futuro depende, sobretudo, de nos dedicarmos como se fosse a uma mudança de sistema operacional. Se não mudarmos o sistema operacional, é como se os programas de futuro, todas essas coisas ligadas a criatividade, colaboração, novas tecnologias, não conseguissem rodar no sistema tradicional. Especialmente se ele for baseado em medo, desconfiança e competição.

O futuro pode ser muito legal, sim, inclusive porque ele sempre é mais legal. Ou tem sido. Ao olhar para o passado, não vejo nenhum momento da história que tenha sido mais interessante, mais harmônico do que este. Tem desarmonia? Claro que sim! Mas nada comparado ao que houve de desarmonia e problema antes. Estamos bem melhor do que jamais estivemos em qualquer momento da história. E o mais provável, portanto, é que o futuro também seja melhor.

 

Como é ser uma futurista e como você percebe a aceitação desses conceitos no mercado?

A questão de ser futurista é como você ser o remédio para uma doença que as pessoas não sabem que possuem. Nos últimos tempos, todo mundo está percebendo que há um problema, então muitas empresas – pequenos empresários ou aqueles que já estavam muito ligados à inovação – já estavam cientes da necessidade de se trabalhar com novas economias. Até porque, se você tem uma crise de recursos, é óbvio que precisa trabalhar com os recursos que são abundantes. Aqueles que não se esgotam com o uso – e que são o que determinam exatamente o seu valor. Os seus atributos, os seus diferenciais, as experiências ou seja: economia criativa. Ampliando a cada ano o campo de atuação, estamos muito satisfeitos com os resultados que temos obtido com empresas e instituições muito grandes.

As empresas estão percebendo que é importante trabalhar com economia compartilhada, situação de crise, situação de transição. Você precisa compartilhar sua infraestrutura, materiais, equipamentos… Economia colaborativa está relacionada a gestão, a modelos mais horizontais e a uma necessidade também. Porque a vida em rede é extraordinariamente dinâmica, muito rápida. E os processos de gestão muito centralizados não conseguem acompanhar nem a escala, nem a complexidade, nem a velocidade. Então a única maneira de dar conta desta transição para uma vida e atuação em rede é com uma gestão distribuída.

É claro que isso leva tempo, mas o que fazemos é iniciar com células de inovação, que começam a fazer experimentos, vendo onde é possível ter mais horizontalidade, mais autogestão, trabalhar com desburocratização. A burocracia consome tempo e recursos que ninguém tem.

 

Fale sobre a economia multivalores.

Todo mundo está vendo que haverá uma diversificação de moedas. Para fazer virar o negócio não é possível considerar apenas o recurso monetário. Você tem que monetizar e gerar resultados, aliás, a partir do fluxo dos seus recursos culturais. Como seu conhecimento, seus atributos, sua criatividade. Também dos recursos ambientais – infraestrutura, espaços e equipamentos. E dos recursos sociais – que são as redes a que você pertence, o conjunto de players, o ecossistema, os parceiros. Tudo isso é recurso. As empresas precisam gerar resultados não apenas monetários, mas também sociais, culturais e ambientais para poderem existir.

 

Futurismo e as novas economias

 

O que esperar das novas economias?

O ponto mais importante é entender a razão pela qual as economias criativa, compartilhada e colaborativa são tão estratégicas para o futuro. E essa razão é que não é possível para o planeta, para a sustentabilidade, e mesmo para a longevidade das iniciativas – da gestão pública ou de qualquer área – dar conta do recado com os modelos atuais. Trata-se de modelos que, sendo baseados em recursos tangíveis/materiais e realizados em processos centralizados, conseguem apenas resultados lineares. O que isso quer dizer? Linear cresce por soma, então 5 + 5 = 10. Só que os desafios que temos são exponenciais. Então uma capacidade de resposta linear não dá conta de desafios exponenciais. Assim, precisamos ser exponenciais, e é aí que entram essas novas economias.

 

Descreva as quatro economias com as quais trabalha diariamente.

A economia exponencial é a economia criativa. Ela é o valor que está nos intangíveis, não na coisa em si. É tudo que é feito a partir de conhecimento, criatividade, experiência, conhecimento, que são coisas que não se consomem, mas se multiplicam com o uso e por isso são totalmente estratégicas.

A economia compartilhada refere-se à infraestrutura. Não é possível ser sustentável, nem alcançar resultados exponenciais, porque nada que é material tem natureza exponencial. Então como eu resolvo isso? Eu uso as tecnologias de informação e comunicação para compartilhar a infraestrutura já existente. É aí que vêm empresas como Airbnb ou de compartilhamento de carros. É aí que existem cidades muito sábias, que ao invés de proibir, acentuam a economia compartilhada. Então, se eu sou a Prefeitura, e falta estacionamento, em vez de gastar fortunas, anos e muito transtorno para fazer novas vagas, eu crio um sistema de mapeamento de garagens disponíveis, porque o dono mora no lugar tal e trabalha fora. A Prefeitura cria esse sistema e ganha quem tem a garagem, quem usa e também o Estado, que pode investir em coisas melhores. E isso é uma tendência para todo tipo de iniciativa.

Já a economia colaborativa é relativa ao modelo de gestão. Quando temos estruturas totalmente hierárquicas, o modelo de gestão centralizado tem uma capacidade de resultado muito limitada. Já quando você tem modelos de gestão distribuídos, a possibilidade de ter resultados exponenciais é imensa. Um exemplo claro disso é o Wikipédia. Imagine se houvesse um departamento de aprovação de verbetes. Ainda estaríamos no verbete número 5! Ela é possível porque é feita de forma colaborativa. Na verdade, é uma combinação das três: é economia criativa porque usa o conhecimento de cada um. É economia compartilhada porque cada um disponibiliza o seu conhecimento usando a sua infraestrutura, o seu computador. E é colaborativa porque cada um decide o que quer colocar, como quer colocar, onde quer colocar.  O que é fascinante na economia colaborativa é que você consegue ganhar escala combinando muitos, pequenos e diversos, como acontece na Wikipédia ou como acontece em todos os processos que têm gestão colaborativa.

Finalmente, eu percebo que falta uma quarta economia, que é um dos focos principais do meu trabalho. Eu atuo com as quatro economias simultaneamente – criativa, compartilhada, colaborativa e essa quarta que estou chamando de multivalor 4D. Pois a economia não é só finanças e, sim, o fluxo de recursos culturais, sociais, ambientais e financeiros. E não apenas o fluxo de recurso nas quatro dimensões, mas, principalmente, gerando resultado nas quatro dimensões. E isso é que faz toda a diferença para o futuro.

 

Como você vê o Brasil nesse cenário?

Por que o futuro econômico do Brasil depende do humano? Porque existe uma quantidade de oportunidades extraordinárias que temos à frente, sobretudo quando conhecemos e levamos em consideração as novas economias. Porém, todas essas oportunidades dependem das pessoas, das escolhas que fazemos e, sobretudo, da nossa capacidade e disponibilidade para trabalhar colaborativamente, pois o grande desafio deste século é que não se pode mais fazer nada sozinho. Não é mais possível fazer gestão pública sem a participação da sociedade. Não vai ser possível uma gestão empresarial sem o envolvimento dos seus colaboradores… e por aí vamos. E o Brasil pode sair com vantagem porque nós temos muitos atributos favoráveis. Temos uma capacidade muito grande de lidar com a diversidade, de adaptação, da gambiarra como uma arte, da capacidade de colaborar, da criatividade. Basta realmente encararmos isso como uma tecnologia – não hard, mas uma tecnologia soft, relacional.

Quanto a outros países, temos muito o que aprender. Basta ver todos os exemplos que estão num livro chamado Reiventing Organizations, com dezenas de casos dos EUA, da Holanda, da Alemanha, de empresas que trabalham com modelo horizontal, com colaboração, com economia criativa. Em relação a cidades, há uma rede chamada Sharing Cities, em que prefeitos e gestores estão adotando o compartilhamento e a colaboração como estratégia de desenvolvimento. Por exemplo, você pode resolver questões dos bairros com crowdfunding e uma gestão compartilhada com as lideranças locais. Coreia e Bélgica estão superavançadas nisso.

Em resumo, trata-se de um processo de organização entre as pessoas. Nós estamos muito atrás em relação a tudo isso, apesar de termos um perfil de transformação rápida. A tecnologia já está mais avançada, mas nós, quando queremos, sabemos muito colaborar. E um dos exemplos maiores que temos é o Carnaval. O Carnaval é uma belíssima combinação dessas novas economias. Ele é uma economia criativa, ele é feito pelo compartilhamento das infraestruturas, ele é feito com uma gestão mais horizontal, e os valores que estão em jogo normalmente não são dinheiro, mas tempo, materiais, conhecimento, etc.

 

“Nós somos integralmente educados pelo passado. A gente só estuda passado. Somos analfabetos para o futuro e não o sentimos.” – Lala Deheinzelin. Fale-nos sobre isso.

Uma coisa importante de se saber neste momento é que o futuro depende dos sonhos do passado e das escolhas do presente. Isso é a frase-chave do Crie Futuros – um movimento que eu lancei em 2008 para estimular a criação de futuros desejáveis. Por que precisamos de futuros desejáveis? Porque quando está claro o que um coletivo deseja, esse coletivo se organiza para realizar. É aí que surge a inovação, e isso fica muito evidente quando vemos imagens que existem desde a metade do século XIX, mostrando chamadas telefônicas com vídeo – hoje realidade.

Então é importante saber que existem três tipos de futuro. Futuro provável é aquele que normalmente nos deixa mais assustado e só sabemos dizer “ai, isso eu não quero”. Não dá para ficar preso nesse futuro provável. Precisamos avançar para o desejável. Não para colocar toda a atenção no que não queremos, mas naquilo que realmente queremos. Assim, ampliamos os campos dos futuros possíveis e isso que é o trabalho de um futurista.

 

De que forma você acredita que as pessoas podem se “alfabetizar” melhor para o futuro?

Nós da Crie Futuros desenvolvemos ferramentas para atuar nessa transição, combinando tudo que é necessário. É futurismo com novas economias (criativa, compartilhada, colaborativa e multimoedas). Esse conjunto nós chamamos de Fluxonomia 4D, um trabalho superfocado em “como” – porque, muitas vezes, sabemos “o que” precisa ser feito, mas não “como” fazer. É um processo de síntese para criar outros processos que materializem essas novas economias incluídas no cotidiano tanto do profissional quanto da empresa.

Atualmente, estamos trabalhando com Natura, Globosat, Associação Brasileira de Franchising, Sesc RS. E o que nós fazemos? Conforme o caso, temos um cardápio de atividades. Os eixos são assessoria, formação, prototipação de processos, palestras e workshops. Fazemos muitas palestras e atuamos com startups, pequenas empresas e profissionais que queiram trazer para seu cotidiano o futuro e as novas economias.

 

Fotos: Lala Deheinzelin/Divulgação
Categorias Ping-Pong