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Conexão perdida: dispositivos móveis VS convivência pessoal

Por Richard Watson*

O mundo está mais falante hoje do que em qualquer outro período da história. Entretanto, isso vem cada vez mais à custa de conversas significativas. Nós estamos falando “aos” outros – em vez de “com” os outros. Pelo menos é a minha visão – e da professora Sherry Turkle, do MIT, autora do livro Alone Together. Dispositivos móveis, sobretudo smartphones, invadiram espaços anteriormente quietos ou privados. Agora, passamos mais tempo olhando para baixo (a tela) do que para fora (as outras pessoas e o nosso ambiente). A amizade e o amor são cada vez mais mediados e filtrados por telas. Enquanto isso, o mundo real é visto em segundo plano.

Algum tempo atrás, em artigo para o Huffington Post, o fotógrafo Babycakes Romero sugeriu a existência de “certa simetria” entre indivíduos usando dispositivos móveis. Eles estariam “presos simultaneamente – e, no entanto, separadamente – na mesma ação”. No texto, Romero observa ainda alguma “tristeza no processo”.

Até certo ponto, indivíduos usam smartphones e outros dispositivos muito como já foi usado o cigarro. Isto é, para puxar conversa, passar o tempo ou esconder desajustamento social. Mas talvez sejam os próprios dispositivos que estejam causando esse desajustamento e criando certa fragilidade. Pode-se argumentar que, numa cultura dominada por individualidade e personalização, há menos “cultura comum” com que se identificar e para se discutir. Talvez estejamos usando esses dispositivos para esconder solidão ou insegurança, dada nossa eterna busca por validação e aprovação.

 

O SILÊNCIO DOS DISPOSITIVOS MÓVEIS

Nossos dispositivos induzem silêncio – e ao mesmo tempo nos tornamos menos hábeis para lidar com o silêncio genuíno. Nós perdemos – ou estamos perdendo – tanto a habilidade quanto o desejo de ficarmos sozinhos. Consequentemente, nossos dispositivos móveis oferecem uma desculpa para as pessoas, sobretudo casais, se retirarem em vez de se engajarem em conversas. Permitem que eles mantenham o mundo (e o outro) a uma distância controlável.

Ainda não está claro se há ou não uma etiqueta emergente para uso de dispositivos móveis. Alguns anos atrás, a resposta certamente seria “não”. Usar celulares em reuniões importantes ou casamentos, por exemplo, era considerado aceitável. Mas as coisas estão lentamente mudando, e o antigo normal já pode ser visto por alguns como rude ou estranho. Usar telefone durante um funeral parece um pouco mais malvisto do que um dia já foi. O mesmo para cinemas – e acho interessante que a ideia de usá-los (para chamadas) em voos não tenha decolado. A recente popularidade de dumbphones (celulares sem funções smart) poderia ser igualmente um sinal de que estamos buscando algum tipo de equilíbrio digital.

 

MORTOS-CONVIVAS

Babycakes Romero observou também que, quando ocupadas num dispositivo móvel, as pessoas não parecem mentalmente presentes. Perderiam, assim, a capacidade de aproveitar o momento ou a companhia de quem está com elas. Isso seria especialmente perceptível em restaurantes, onde esses “mortos-convivas” mal olham o outro, tal a atração das possíveis informações recebidas.

Claramente, estamos dizendo “eu adoro/amo você, mas você pode ser superado a qualquer momento por outra pessoa ou coisa”. Isso não parece bom para a autoestima. E, ironicamente, as pessoas continuam mais predispostas a saciar sua fome de conexão através dos dispositivos móveis e do ciberespaço.

Obviamente, quando nos apresentamos por meio de dispositivos móveis, particularmente nas mídias sociais, nossa identidade é artificial. Raramente é uma representação nua e crua do que somos. Em vez disso, usamos uma identidade falsa, que é conscientemente manipulada e bem-cuidada. Através das nossas telas, parecemos mais felizes, otimistas e bem-sucedidos do que realmente somos. A natureza dessas conversas mediadas por telas também favorece o exibicionismo e a extroversão.

Nossas conexões são portanto baseadas em informações falsas – e acabamos acreditando em nosso falso RP. Essa situação pode durar muito tempo, mas em algum momento iremos, inevitavelmente, ser assaltados pela realidade.

 

QUAL A SOLUÇÃO?

Eu penso que devamos ritualizar o desligamento dos nossos dispositivos. Domingos (ou talvez sábados, dependendo da sua linha religiosa) deveriam ser dias de desconexão. Deveríamos recarregar a nós mesmos, assim como a nossos dispositivos. Deveríamos nos conectar, física e não digitalmente, com as pessoas e com o nosso ambiente natural. Ou talvez aprender a desligar nossos telefones depois de certa hora todas as noites. Ou ter dois telefones – um para trabalho e outro para o que quer que seja atualmente o oposto de trabalho. O telefone de trabalho se desligaria automaticamente, todos os dias, às 18h. Mas haveria uma mensagem, dizendo que se algo fosse realmente importante, a pessoa poderia ligar para o outro número. Aposto que isso aconteceria em raríssimas ocasiões.

Nós poderíamos também trocar as Casual Fridays por Tech-Free Thursdays. Proibido enviar mensagens. Em troca, as pessoas deveriam falar com as outras pessoalmente. Ou, quer saber?! Poderíamos até reviver a ideia de almoço – e deixar as pessoas se encontrarem para um drink e um cigarro…

 

*Richard Watson é autor, filósofo, futurista e fundador do site de tendências What’s Next.

 

Foto: iStock/AntonioGuillem
Categorias Opinion