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Disrupção e mundo digital: sete perguntas para Martha Gabriel

Martha Gabriel é uma das vozes mais respeitadas entre os pensadores digitais no Brasil. Já lançou cinco livros – incluindo o best-seller “Marketing na Era Digital” e o finalista do Prêmio Jabuti “Educ@r: a (r)evolução digital na educação”. Acumula mais de 70 palestras no exterior, além de quatro TEDx, e apresenta a websérie “Caminhos da Inovação”. No rádio, conduz o programa “Mundo Digital”, da Jovem Pan.

Listada entre os 50 profissionais mais inovadores do mundo digital brasileiro pela ProXXIma e entre os Top 50 Marketing Bloggers mais influentes do mundo pelo Kred, atua como executiva e consultora nas áreas de Marketing, Business, Inovação e Educação. Engenheira pós-graduada em Marketing e Design, possui mestrado e PhD em Artes no currículo, bem como programas de Educação Executiva em Inovação e Neurociência para Liderança no MIT. Martha Gabriel é professora de pós-graduação na PUC-SP e em MBAs, além de integrar a faculty internacional da CrossKnowledge.

Nesta entrevista exclusiva à IT Management, a especialista fala de transformação digital nas empresas, competências do futuro e felicidade. Confira:

 

A partir da sua experiência como consultora em diversas empresas, você poderia nos dar um panorama do que tem visto dentro das organizações em relação ao mundo digital?

Revoluções – como a digital, que estamos vivendo atualmente – caracterizam-se por mudanças de paradigmas. Estas, por sua vez, trazem a sensação de perda e sofrimento, pois a segurança do que conhecíamos vai embora. Assim, para compreender momentos de disrupção no mercado, penso que a melhor analogia é o “ciclo do sofrimento”. Descrito em 1960 por Elisabeth Kübler-­Ross, ele elenca cinco estágios sucessivos: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação.

Primeiro negamos a mudança. Depois, quando não conseguimos mais negar, ficamos com raiva por termos de abrir mão do que era nosso. Em seguida, tentamos negociar para “esticar”, ou seja, ter um pouquinho mais daquilo que conhecemos, antes de mudar. Quando vemos que não há mais como “esticar” e que precisamos abraçar a nova condição, passamos ao estágio de depressão. É quando precisaremos encontrar forças para reconstruir o nosso mundo de forma diferente. E, finalmente, abraçamos o novo paradigma, reestruturados. Pessoas que não conseguem chegar à fase de aceitação ficam presas ao passado; não conseguem evoluir. Empresas também.

“O maior ensinamento do mundo digital é que não importa o quão bom fomos até aqui; para seguir relevantes, não podemos nos acomodar jamais.”Penso que todas as empresas já passaram do estágio da negação. A consciência de que estamos vivendo um ambiente de negócios inédito reestruturado pelas tecnologias digitais tornou-se ponto pacífico. Entre empresas plenamente adaptadas e outras no estágio de raiva, acredito que a grande maioria já entendeu a depressão. As companhias estão conscientes de que não adianta mais negociar para “esticar” o passado. E isso inaugura a corrida para a transformação digital – que é o tom do momento.

Para tanto, as empresas estão atacando principalmente duas frentes: 1) busca de capacitação de todos os níveis de colaboradores para transformar a cultura corporativa com os valores necessários para se ter sucesso na Era Digital; e 2) inovação para reestruturar tecnologias e processos da organização, focando em acompanhar a demanda de velocidade e mudança das transformações digitais.

Nesse sentido, a situação das organizações no mercado é bastante heterogênea e complexa. O nível de implementação dessas ações – capacitação, mudança de cultura e reestruturação de processos – varia conforme a maturidade e a natureza de cada indústria para lidar com um ambiente veloz, com alto grau de incerteza e infinidade de soluções tecnológicas. Assim, algumas áreas, como a de tecnologia, estão em estágios mais avançados de transformação digital do que outras mais tradicionais.

 

Quais são as suas linhas de estudo e trabalho neste momento?

No momento, as minhas pesquisas e atuações estão muito ligadas a assuntos como inteligência artificial e cérebro humano. Dou aula de Inteligência Artificial no TIDD, programa de pós-graduação da PUC-SP, e lanço um novo livro em dezembro – “Você, eu e os robôs: pequeno manual do mundo digital”, no qual discuto as dimensões que considero mais importantes para que qualquer pessoa consiga entender e atuar no mundo de hoje: impactos da tecnologia no ser humano, educação digital, privacidade, segurança, ética, criatividade, pós-verdade, fake news, mega e micro tendências tecnológicas, inteligência artificial, futuro do ser humano e ser humano do futuro. Diferentemente dos demais livros que escrevi, focados apenas em negócios, este pretende fornecer realmente um “pequeno manual do mundo digital”. Destina-se a qualquer pessoa – e, logicamente, os profissionais das áreas em que atuo também se beneficiarão.

 

Na sua opinião, qual o maior desafio que enfrentamos hoje em relação à Era Digital e como podemos nos preparar para esse cenário?

O grande desafio do mundo digital é que a velocidade de transformação tecnológica é exponencial, mas a percepção humana é linear. Nesse sentido, tendemos a imaginar o futuro como uma continuação das regras do passado, que aprendemos a executar. Porém, o que está acontecendo no ambiente são quebras constantes dos modelos e paradigmas passados, e não sua continuação. Assim, o que sabíamos ontem não resolve o novo problema de hoje. Planejar não faz mais sentido se não considerar metodologias ágeis que se ajustem ao desenvolvimento dos projetos.

Logo, o que tem valor nesse cenário não é mais possuir informação – isso era valioso no século passado. Pois tudo muda constantemente; a informação é efêmera. O que passa a ser valioso é saber conectar as informações disponíveis a cada momento para extrair valor e soluções. Isso é o que chamamos de inovação. Vivemos hoje a era da inovação, fundamentada pela informação e pela tecnologia. O foco deve estar no valor que vamos gerar – e não na informação e tecnologias que temos em mãos. Devemos buscar essas últimas para alcançar a primeira. Infelizmente, nem sempre é assim, pois nos perdemos no mar de tecnologia e informação, esquecendo o valor que devemos gerar. Em minha opinião, a melhor maneira de se preparar e atuar no mundo digital é a seguinte:

1) abraçar a incerteza e a mudança, em vez de resistir;

2) desapegar de conhecimentos e visões passadas e estar sempre aberto, sem preconceitos, para o novo;

3) estudar, se atualizar e se preparar constantemente;

4) resiliência (para dar conta da incerteza e frustração de expectativas em cenários com alto grau de mudança);

5) usar metodologias ágeis (para não perder o foco).

 

O que mais tem chamado sua atenção neste universo? Ou o que ainda a intriga e por quê?

Em decorrência da velocidade de transformação e dos impactos das tecnologias na vida humana, o que mais me preocupa e intriga é a sustentabilidade do ser humano. A tecnologia tem o potencial de resolver todos os problemas de sustentabilidade do meio ambiente, das cidades e das organizações. A tecnologia tem melhorado consideravelmente o mundo, mas inúmeros estudos mostram que ansiedade, stress e depressão têm aumentado. Isso entre vários outros efeitos negativos que a vida moderna tem nos causado.

Penso que existe uma confusão muito grande na sociedade com o conceito de felicidade. Ser feliz é ser sustentável – não é a ausência de problemas ou ser alegre o tempo todo. Se não tivéssemos dificuldades, a felicidade não seria possível por falta de comparação e objetivo. Somos movidos pelo desejo, e o desejo vem da nossa incompletude – é na busca da completude que somos felizes. No entanto, se não formos sustentáveis, ficamos incapacitados ou limitados para atuar no mundo. Assim, para ser sustentável, o ser humano precisa equilibrar não apenas a dimensão física da sua existência (que pode ser resolvida com a tecnologia), mas também as dimensões mental, espiritual e ética. E isso a tecnologia sozinha não apenas não pode resolver, como tende a prejudicar, dispersando energia e foco.

Considerando que cada vez mais o diferencial competitivo das organizações está no talento das pessoas que as compõem, associado ao modo como usam a tecnologia, essa questão da sustentabilidade do ser humano torna-se cada vez mais urgente. Para nos preparar, penso que tenhamos de aprender a valorizar habilidades que ajudam a atuar neste cenário. Pensamento crítico, criatividade, conexão, resiliência. Também devemos nos capacitar para o uso da tecnologia em tudo quanto ela possa nos auxiliar. Isso passa, por exemplo, pela adoção de assistentes digitais inteligentes, automatizando todo o possível e facilitando a tomada de decisões. E, claro, evitar multitasking – um dos principais problemas geradores de burnout, perda de foco e de produtividade.

 

“O maior ensinamento do mundo digital é que não importa o quão bom fomos até aqui; para seguir relevantes, não podemos nos acomodar jamais.”

 

A economia digital está mudando a forma como interagimos com as coisas e as pessoas. Antigamente era mais importante “ter”, e hoje a ênfase se desloca para o “ser”. Como você enxerga esta mudança? E quais as maiores lacunas que precisam ser trabalhadas pelas empresas para que elas prosperem no mundo digital?

Conforme o mundo se digitaliza, passamos de analógicos para digitais, de átomos para bits, de hardware para software. Tudo que pode ser transformado em bits e transferido para a cloud, será – inclusive nós mesmos, os seres humanos. Estamos expandindo nosso ser para o ambiente digital. Quanto mais tecnologia e conexão temos, mais híbridos nos tornamos, ampliando nosso cérebro biológico para a nuvem computacional.

Esse processo está deslocando o polo de valor do mundo de tangível para intangível. Afinal, o que tem valor está cada vez mais em ambientes digitais do que físicos. Seu smartphone, por exemplo, tornou-se apenas uma interface para acessar o que realmente importa – os serviços na nuvem. Lá estão seus dados e informações, a extensão do seu ser. Por isso, “ser” tem se tornado cada vez mais importante do que “ter”. Vemos isso muito claramente na geração Z, que se diverte e se relaciona na nuvem com fluência e maestria. Eles priorizam a conexão, em vez das coisas materiais ao seu redor.

Outro efeito do processo de digitalização do mundo é que tudo está se tornando cada vez mais transparente. O ambiente digital favorece o compartilhamento e a visibilidade, ao mesmo tempo em que dificulta a privacidade. Esse processo faz com que as pessoas estejam muito mais expostas do que no passado. Portanto, suas ações estão muito mais visíveis, quer sejam boas ou ruins. Dessa forma, a transparência do ambiente valoriza o “ser” ético e bom, mais do que o “ter”. Isso nos conduz a um paradoxo interessante: quanto mais tecnologia possuímos, mais humanos precisamos ser.

Junto à transparência e transferência do ser humano, a digitalização favorece a colaboração. Nessa dimensão, saber utilizar e fomentar a colaboração para os objetivos de negócios é um recurso extremamente valioso para capturar inovação e insights sobre o mercado.

Com isso em mente, para prosperar no ambiente digital, as empresas precisam ser éticas – realmente. E estruturar sua cultura e ferramentas para fomentar a colaboração em prol do negócio. Essas três coisas não são fáceis. Requerem esforço e investimento de tempo. Mas resultam num DNA favorável para atuar no contexto atual.

 

Como foi receber o Prêmio Profissional Digital 2017 Abradi-SP?

Receber um reconhecimento profissional desse nível – que premia a carreira e não apenas uma ação realizada – foi muito especial para mim, pois minha vida profissional foi pautada pelo computador. Sempre brinco que o que para os outros é história, para mim é memória – acompanhei e atuei na evolução das tecnologias digitais desde os mainframes com cartões perfurados, na época da faculdade, passando e usando tudo no meio do caminho até chegarmos à era cloud. No entanto, por mais maravilhoso que seja receber um prêmio, penso que o maior ensinamento que o mundo digital nos dá é que não importa o quão bom fomos até aqui; para seguir relevantes, não podemos nos acomodar nunca. Assim, fico muito agradecida e continuo estudando, atuando e buscando novas fronteiras.

 

Para finalizar, se puder dar um conselho para os profissionais, principalmente na área de TI, o que falaria?

Conforme a inteligência artificial avança e evolui, tudo o que puder ser automatizado será. O que nos diferencia dos computares, pelo menos até a IA atingir o nível da inteligência humana, são 3Es. Emoção, empatia e ética. Com o mundo repleto de bots, um humano robotizado não é mais necessário. Dessa forma, os profissionais éticos, que criam emoção e procuram “sentir” o outro para proporcionar boas experiências, são os que tendem a ter sucesso no ambiente cada vez mais digitalizado. Pesquisas sobre habilidades e características profissionais em ascensão apontam que cada vez mais as soft skills são diferenciais para o sucesso. Afinal, elas são responsáveis por proporcionarmos boas experiências – segundo a Gartner, o novo campo de batalha para a diferenciação competitiva.

Por outro lado, quanto maior a capacitação tecnológica do profissional, mais valorizado ele se torna também. Estamos pavimentando um caminho em que teremos cada vez mais “seres digitais” convivendo conosco em todos os ambientes. Kevin Kelly, fundador da Wired, afirma que no futuro seremos pagos por quão bem trabalhamos com computadores, robôs e IA. Penso que não existe outro caminho de evolução profissional que não seja esse. Assim, meu conselho para qualquer profissional hoje é: adquira o máximo de competência tecnológica para lidar e se misturar com a inteligência artificial/robôs/computadores. Mas, ao mesmo tempo, cultive um coração cada vez mais humano para encantar os humanos.

 

Fotos: Divulgação/Martha Gabriel

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