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Klaus Lackner: só a tecnologia pode salvar o planeta

Tecnologia desenvolvida pela equipe de Lackner abre possibilidade de capturar gás carbônico presente na atmosfera

Tecnologia defendida por Lackner permite capturar gás carbônico presente na atmosfera

A tecnologia é nossa única chance contra o aquecimento global. Quem afirma é ninguém menos que o fundador do Centro para Emissões de Carbono Negativas, que funciona na Arizona State University, nos Estados Unidos. Ainda mais importante do que reduzir as emissões de CO2 daqui para frente, garante Klaus Lackner, é tratar com urgência o dióxido de carbono já liberado, pois o nível seguro desse composto na atmosfera foi excedido. Para o especialista, nenhuma outra abordagem tem melhores condições de fazer frente ao problema – e já estamos atrasados. A boa notícia é que a tecnologia para captura de CO2 está pronta, com direito a protótipo funcional no telhado do centro de pesquisas comandado por Lackner. O aparelho desenvolvido por sua equipe atua mais ou menos como uma árvore – mas é mil vezes mais eficiente.

 

Sabemos que o nível de CO2 na atmosfera excedeu o limite considerado saudável, de 350ppm. Quais as consequências desse indicador?

O nível de CO2 aumentou de 280 partes por milhão, na era pré-industrial, para mais de 400ppm hoje. De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o aquecimento de dois graus que o mundo está tentando evitar fica próximo dos 450ppm. No ritmo atual de emissões, levará menos de 20 anos para chegarmos lá. O excesso de CO2 aquecerá o planeta e mudará padrões do clima, causando secas em alguns lugares e inundações em outros. A infraestrutura humana é construída para o clima que havia antes, não para o clima que existe hoje. Ter de mudar essa infraestrutura será dispendioso, e, dada a rapidez da mudança, muitos ecossistemas simplesmente não poderão se adaptar, o que levará à extinção de espécies. O derretimento das geleiras fará o nível dos oceanos subir. As mudanças climáticas poderiam atrapalhar a produção de alimentos.

 

Você defende que nossa maior esperança para evitar grandes problemas decorrentes do aquecimento global é lançar um extensivo programa de captura de CO2. Fale-nos a respeito.

O CO2acumulado na atmosfera causa aquecimento global. Muitos especialistas consideram 450ppm o limite que não deve ser ultrapassado. Porém, dado o crescimento econômico atual e a contínua dependência de combustíveis fósseis, tornou-se praticamente impossível interromper as emissões de CO2a tempo. O fator de emissão de carbono da economia global é um bom parâmetro para medir nosso problema. Para interromper as mudanças climáticas causadas pelo CO2, teremos que interromper as emissões. Isso significa que o fator de emissão de carbono da economia global deverá cair a zero. Podemos chegar a zero – abandonando combustíveis fósseis ou capturando o CO2 e descartando-o com segurança, permanentemente. Quanto mais demorarmos para interromper as emissões, mais alto será o nível de CO2 quando o fizermos. Se quisermos parar em 450ppm e ter um crescimento econômico de 3% ao ano, o fator de emissão de carbono da economia global terá de ser reduzido em 8,4% a cada ano. Não acredito que isso aconteça. Portanto, tenho certeza de que iremos além da meta de 450ppm. Nós deveríamos ter parado em 350ppm. Já ultrapassamos a meta. Sendo assim, a única opção que resta é capturar o carbono e descartá-lo com segurança, permanentemente. Podemos frear emissões futuras, mas não podemos mudar de opinião sobre emissões passadas.

 

Conte-nos sobre a solução que você e sua equipe desenvolveram para resolver essa questão. Como o seu sistema opera e o que inspirou seu design?

Temos trabalhado, ao longo dos anos, no descarte do CO2 como carbonato mineral e, mais recentemente, na retirada do CO2 do ar. A ideia é acelerar a captura que ocorre naturalmente nas árvores. Nosso equipamento é feito de materiais que se ligam ao CO2 enquanto o vento sopra neles. É algo muito semelhante às folhas de uma árvore. Ao contrário da árvore, contudo, nós não tentamos converter o CO2 em algo diferente, então não precisamos nos preocupar em expor as folhas à luz do sol. Como resultado, nossas “árvores sintéticas” são cerca de mil vezes mais rápidas para coletar o CO2 que uma árvore natural.

 

Como funciona esse equipamento?

O material que usamos (uma resina de troca iônica comum) se liga ao CO2 quando está seco, mas o devolve quando está úmido. Assim, nós expomos uma enorme vela desse material ao vento até que esteja carregada com CO2. Então, nós coletamos o material numa caixa fechada, onde o deixamos úmido. Por fim, capturamos o CO2 que sai dali. A concentração de CO2 liberado é aproximadamente cem vezes maior que a encontrada no ar. Nós usamos vários métodos para produzir correntes ainda mais concentradas de CO2, mas isso não é muito diferente daquilo que se faz quando se coleta CO2 em usinas elétricas. A diferença é que temos um gás mais limpo, que podemos produzir em qualquer lugar.

 

Uma vez capturado o CO2 da atmosfera, qual seria, na sua opinião, a solução mais realista e ecológica para o descarte? Ele pode ser “reciclado” de alguma maneira?

A dificuldade para reciclar o CO2 é que simplesmente produzimos demais. Sim, parte dele pode ser reciclada. Pode-se imaginar um futuro em que praticamente todo o CO2 seja reciclado. Porém, enquanto carbono fóssil sair do chão, será necessário anular CO2 de novo.

Do contrário, ele ficará no ambiente por milhares de anos. Parte do CO2 poderia ser usada para a infraestrutura humana – por exemplo, na construção de casas ou pontes. Entretanto, assim fica mais difícil provar que ele de fato foi permanentemente retirado de circulação.

 

Alguns críticos dizem que sua tecnologia é muito cara para se construir.

É sempre difícil dizer quanto novas tecnologias custarão no futuro. A energia renovável começou extremamente cara, mas se entendeu que seu custo diminuiria. O mesmo acontecerá com a captura de ar. E ela está bem mais próxima de seu custo-alvo que a energia renovável estava no começo – pode facilmente cair abaixo de US$ 100 e, assim, tornar-se de interesse prático. Uma meta de longo prazo seria baixar para menos de US$ 50 por tonelada. Isso equivaleria a pouco menos de 45 centavos de dólar por galão de gasolina, ou cerca de 11 cents por litro. Eu já disse no passado que podemos baixar para US$ 30 por tonelada de CO2. Só que isso ainda precisa ser demonstrado, então precisamos de apoio.

Eu sugeri essa tecnologia há cerca de 20 anos. Agora o nível de CO2 vai ultrapassar a meta. A captura de ar deve ser implantada assim que possível para minimizar o estrago que vai acontecer. A cada ano que aguardarmos, maior será o aquecimento.

 

O que mais deveríamos fazer para ajudar a resolver essa situação agora?

Mudar nossa maneira de pensar. Estamos focados na redução do consumo para eliminar a emissão. E não podemos convencer o mundo inteiro a parar de consumir. Tampouco seria justo dizer aos pobres que eles não podem atingir um nível de vida decente. Em vez de dizer às pessoas que elas precisam parar de emitir, nós deveríamos tratar o CO2 como um rejeito que precisa ser administrado.

 

 

Confira a íntegra da entrevista de Klaus Lackner na edição impressa da IT Management #10.

Fotos: Divulgação/Arizona State University

 

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