HPE OneSphere
Navigation
Topo

Edição de áudio: adulterar falas já é simples como retocar fotos

Modificar uma fotografia tornou-se, há anos, uma tarefa corriqueira, acessível a qualquer usuário de computador. Adicionar ou remover elementos e pessoas, esconder imperfeições, criar ilusões – tudo é possível com os softwares de edição atuais. Se antes todos podiam confiar nos próprios olhos, hoje não é mais tão fácil distinguir cenas reais de manipulações. Em tempos de fake news, aliás, textos e imagens já não parecem constituir prova suficiente de nada. Preocupante? Pois a confusão entre falso e verdadeiro promete ficar ainda maior. Isso porque a edição de áudio está prestes a se tornar igualmente fácil, poderosa e acessível. Com softwares desse tipo evoluindo rapidamente, até adulterar falas já está ficando simples como retocar uma imagem no Photoshop. 

Recentemente, uma startup do Canadá apresentou o Lyrebird – uma interface capaz de imitar a voz de qualquer pessoa. Para fazê-lo, tudo que o sistema precisa é de um minuto de gravação da voz original. Analisando esse padrão, o software é capaz de reproduzir o timbre desejado – e futuramente poderá criar discursos com diferentes entonações. Não se trata, nesse caso específico, de edição de áudio baseada em montagem. Na verdade, o aplicativo copia a sonoridade da voz-alvo e cria um novo arquivo, 100% sintetizado, recitando qualquer texto. Não é necessário, portanto, que a vítima da adulteração diga na gravação as palavras necessárias ao discurso final. Basta uma pequena amostra de sua voz para que o computador a reproduza como um imitador profissional. 

 

Lyrebird: em vídeo de divulgação, startup sintetizou voz de Barack Obama 

 

EDIÇÃO DE ÁUDIO x EDIÇÃO DE IMAGENS 

Quando se fala em edição de imagens, a Adobe é certamente uma das primeiras fabricantes que vêm à mente. E a detentora do mundialmente famoso Photoshop também não quer ficar de fora da próxima onda. Ainda no ano passado, a empresa causou frisson ao apresentar sua tecnologia para edição de áudio. 

Batizada de Projeto VoCo, a solução requer 20 minutos de gravação para capturar a voz do alvo. A partir de então, funciona de modo muito semelhante ao Lyrebird, permitindo criar novos pedaços de texto e sintetizá-los. Basta abrir uma caixa de texto, apagar o que foi dito originalmente e inserir o que se deseja ouvir no lugar. Imitando o timbre e até o jeito de falar da pessoa, o algoritmo providencia, num clique, o arquivo modificado. Confira a demonstração da interface: 

 

 

EDIÇÃO DE ÁUDIO PODE ACIRRAR GUERRA DE NOTÍCIAS FALSAS? 

A apresentação da Adobe e a versão beta do Lyrebird (já disponível online) demonstram o grande potencial dessas tecnologias. E, mesmo que ainda imperfeitas, acaloram a polêmica sobre manipulação de informações em tempos de pós-verdade. 

O termo “pós-verdade”, eleito pelo Dicionário Oxford como palavra do ano em 2016, define bem a era atual. Memes, sofismas e teorias conspiratórias servem de argumento para discussões na internet e fora dela. Montagens fotográficas e textos de origem duvidosa bastam para convencer quem se deixa levar pelo viés de confirmação. Fatos objetivos parecem pouco relevantes na formação da opinião pública. Apelos à emoção ou a crenças pessoais do público-alvo tornam-se fatores mais determinantes no processo persuasivo. 

Todo esse contexto levanta preocupações sobre o futuro acirramento da guerra de notícias falsas que assola o planeta. Se imagens adulteradas e textos apócrifos causam tanto problema, como será quando a edição de áudio se juntar ao arsenal? 

A Lyrebird sustenta que seu objetivo é justamente questionar a veracidade dos áudios, mostrando como é fácil adulterar um discurso. A startup defende que o único caminho possível para enfrentar o problema é expô-lo ao máximo. Assim, todos ficariam cientes da possibilidade de se sintetizar a voz de alguém e vazá-la como uma suposta gravação. 

 

Foto: iStock/iLexx 
Categorias Drops