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Biomimética: natureza como inspiração para a tecnologia

Por Giane Brocco*

Você já imaginou um benchmark de aproximadamente 3,8 bilhões de anos de experiência para encontrar soluções inovadoras? Estamos acostumados a benchmarks de 30, 40 ou 50 anos. Mas, ao mesmo tempo, temos à disposição a fonte de todas as criações – a natureza. E ela aprendeu, há bilhões de anos, o que funciona e o que é apropriado aqui na Terra. A natureza ensina lições poderosas de como as coisas devem ser construídas para durar. É aí que entra a Biomimética.

Mas como “aprender a aprender” com a natureza? Como trocar lentes antigas por novas, mais sustentáveis e adequadas ao espírito do nosso tempo? Vivemos um período de transição em que precisamos readequar e reavaliar nossas indústrias e serviços. Precisamos repensar nossa liderança e nosso impacto no mundo. Somos constantemente convidados a metamorfosear quem somos e o que fazemos. Por onde começar?

Você provavelmente já ouviu falar que a definição de insanidade é “fazer a mesma coisa repetidamente e esperar resultados diferentes”. Dessa premissa surge o convite para conhecer esta ciência, que representa uma virada de jogo. E que tem grande potencial de disrupção nos nossos modos de trabalhar, produzir, liderar e ver o mundo.

 

TENDÊNCIA TECNOLÓGICA

A Revista Forbes citou a Biomimética como uma das cinco tendências tecnológicas que podem levar uma empresa ao sucesso. Traduzida do inglês biomimicry (que advém do grego: bios, vida; mimesis, imitação), Biomimética significa literalmente “imitar a vida”.

Abordagens semelhantes também estão cada vez mais em pauta (biônica, bioinspiração, ecodesign, ecoengenharia e outros). Isso pode criar confusão na hora de compreender e diferenciar essas áreas da bioinovação. Ainda assim, uma coisa é certa: é comum a todas essas abordagens utilizar a natureza como inspiração.

Através dessa imitação mais profunda e consciente da vida, surge a possibilidade de criar novas tecnologias inspiradas pela natureza. Ou seja: inovar em serviços, produtos, processos e sistemas. Trata-se de um campo de conhecimento que apresenta um novo olhar e avaliação da natureza.

A Biomimética propõe utilizar a natureza como mentora, medida e modelo para inovar em projetos, serviços, produtos, processos e sistemas. Através da Biomimética, temos metodologia ferramentas adequadas ao desenvolvimento dos projetos e à inovação social.

O termo foi cunhado por Janine Benyus, cofundadora do Biomimicry 3.8 (e uma das minhas professoras/mentoras na especialização em Biomimética). Ela introduziu a palavra em seu livro “Biomimética: Inovação inspirada pela natureza”. Considerando que a Terra tenha aproximadamente 4,5 bilhões de anos de evolução, há muito para se aprender com a natureza… E não apenas para se extrair dela.

 

INOVAÇÕES DA BIOMIMÉTICA

O objetivo da Biomimética é o estudo das estruturas biológicas e das suas funções para, assim, aprender com as estratégias e soluções da natureza. E aplicar esse conhecimento em diferentes domínios da ciência, como engenharia, biologia, design, administração, medicina, futurismo e tecnologia, entre outras. Trata-se de usar a natureza como fonte de criação e inovação e permitir que a vida prospere na Terra. A natureza, afinal, é abundante em recursos e inspirações.

Biomimética - abelhas constroem favos hexagonais

Evolução: abelhas são experts em otimizar recursos

A Biomimética possui uma abordagem transdisciplinar que conecta natureza e tecnologia, biologia e inovação, vida e design. Assim, permite obter materiais com propriedades diferenciadas e inovadoras – como revestimentos autolimpantes que reproduzem o funcionamento das folhas da flor-de-lótus. Ou plásticos que se regeneram como a pele humana. Fibras mais resistentes do que o nylon, inspiradas nas teias de aranha. Materiais mais resistentes do que a cerâmica, que crescem em temperatura ambiente. Adesivos superaderentes baseados nas microestruturas dos filamentos das patas da lagartixa. E inúmeros outros casos. Você sabe, por exemplo, por que as abelhas constroem a colmeia de forma hexagonal cilíndrica? Porque isso permite usar a menor quantidade de cera para criar o maior espaço possível para armazenar o mel. Ou seja, produzir mais, utilizando menos recursos, otimizando a produção de toda a colmeia.

 

DAS JANELAS ÀS EMBALAGENS

Biomimética: teias de aranha possuem fibras que refletem luz ultravioleta

Teias de aranha possuem fibras que refletem luz ultravioleta, o que as torna visíveis para aves

A empresa alemã Arnold Glass é outro bom exemplo de inovação pela Biomimética. O fato: mais de 100 milhões de pássaros morrem anualmente na Europa por colidir com vidros dos arranha-céus. A solução: estudar as grandes florestas, onde os pássaros voam livremente e não colidem com as teias de aranha. Ocorre que as teias das aranhas possuem uma fibra que reflete a luz ultravioleta, visível para as aves. Nós, humanos, não a enxergamos. Baseado nesse conhecimento da natureza, a empresa aplicou fibras ultravioletas em seus vidros da linha Ornilux. Com isso, mitigou as colisões, preservando a transparência dos vidros aos olhos humanos.

Vidros baseados na Biomimética evitam mortes de aves na Alemanha

Com a Biomimética, já não é preciso recorrer a vidros coloridos para evitar colisões de pássaros

Outro caso é o da Ecovative, indústria americana que tive a oportunidade de visitar, conhecendo seu processo de produção. A empresa tem como foco substituir materiais como plástico e isopor. Para tanto, produz embalagens e produtos – de cadeiras a isolantes acústicos – com micélio (raiz dos cogumelos) e restos orgânicos de fazendas locais. A Ecovative é hoje líder mundial em biomateriais, criando e ampliando linhas de produtos ecológicos. Os materiais são 100% biodegradáveis e tem custo e desempenho competitivo com os materiais convencionais. A empresa, inclusive, já fechou parceria com gigantes como Dell e Ikea. Ou seja, você pode comprar um computador ou uma mesa e recebê-los embalados nesse material. Após desembalar, você pode enterrá-lo na sua horta ou jardim, utilizando-o como adubo. Os mais corajosos podem se arriscar até a comê-lo.

 

MUDANÇAS EXPONENCIAIS

“A sabedoria demanda da ciência e da tecnologia uma nova orientação em direção ao orgânico, ao gentil, ao elegante e ao belo”. Cada vez mais, confirmam-se as palavras de E. F. Schumacher. Se no século XX nos voltamos mais à economia, no XXI compreendemos que as pessoas estão mais conectadas à natureza. Estão mais conscientes da importância da ecologia e do pensamento sistêmico, em vez do linear. Ainda que a mudança pareça longe da sua realidade, observe que as transformações são exponenciais. Quando você “piscar”, sua realidade será impactada por uma inovação ou tecnologia que parecia distante de atingir seu negócio.

Estamos todos inseridos nessa grande rede que conecta os ecossistemas do planeta. Entender a interdependência das relações, portanto, é essencial para nossa existência e para a existência das empresas. Quanto mais otimizamos recursos e energia e produzimos em ciclos fechados, mais reconhecemos o impacto das nossas ações. E mais conscientes nos tornamos do nosso papel no planeta.

Para a condução de projetos, a Biomimética possui uma metodologia, o Biomimicry Thinking. Aliada a ferramentas como Elementos Essenciais e Princípios da Vida, ela permite revolucionar planos de inovação, tecnologia e gestão.

Dizia Fritjof Capra: “(…) a emergência espontânea da complexidade e de ordem induz a tendência inerente da vida, que é criar novidades”. Sim, uma empresa saudável financeiramente, uma vida saudável e um planeta saudável são possíveis. Dessa forma, convido a mais algumas reflexões: O que um ecossistema ecológico pode nos ensinar sobre a estratégia organizacional adaptativa? Como as florestas podem nos ajudar a aprender sobre relacionamentos que sejam mutuamente benéficos? E se sua empresa pudesse treinar líderes com regras simples que orientam e coordenam os indivíduos para realizar tarefas complexas?

 

A BIOMIMÉTICA NA INOVAÇÃO SOCIAL

As lições da natureza são vastas e abordam também o poder das relações mútuas e simbióticas. A natureza promove a cooperação em vez da concorrência. A fusão da Biomimética na inovação social pode ajudar empresas a alavancar os relacionamentos. E, com isso, promover inovações produtivas e orientadas a resultados capazes de criar culturas organizacionais prósperas.

Nosso mundo está cheio de relacionamentos – das cadeias de negócios às cadeias de suprimentos. Mas não somos os únicos que contam com relacionamentos. Graças aos 3,8 bilhões de anos de evolução do ecossistema, a natureza tem muito para nos ensinar. Principalmente sobre como as relações cooperativas podem criar maneiras mais sustentáveis e resilientes de fazer negócios.

Busquemos imitar a natureza em todos os três níveis – forma natural, processo natural e sistema natural. Se conseguirmos, começaremos a fazer o que todos os organismos bem adaptados aprenderam a fazer: criar condições propícias à vida. Ou seja, permitir a vida prosperar na Terra. Criar condições propícias à vida não é opcional. É um rito de passagem para que qualquer organismo consiga se encaixar no longo prazo.

 

O EXEMPLO DA LAGARTA

Se nós e nossas empresas quisermos permanecer neste planeta (nosso, mas não só nosso), precisamos aprender com os nossos predecessores. Eles estão aqui há muito mais tempo do que nós. E sabem como filtrar o ar, limpar a água, nutrir o solo… Como manter o habitat exuberante e habitável. “O que a natureza faria aqui?”. Só assim entendemos como a Biomimética pode orientar CEOs e líderes de organizações a se comprometer com a economia circular.

Pensem comigo: a lagarta, ao deixar o casulo, enfrenta horas de esforço contínuo para que possa se transformar em borboleta. Alguns observadores científicos experimentaram cortar o casulo para facilitar a vida da borboleta. Mas descobriram que, sem o esforço, a borboleta não consegue voar e, consequentemente, não sobrevive por muitas horas. Tomemos então a lagarta como exemplo para nós e nossas empresas. Ela nos ensina que podemos encarar os desafios e mudanças como as formas de pressão capazes de nos energizar em busca de novas soluções e transformações positivas.

E aí, para quem você vai pedir conselhos a partir de hoje?

 

*Giane Brocco é diretora executiva da Mercobor Ind. e Com. de Art. de Borracha Ltda. e fundadora do Biomimicry Brasil (consultoria representante do Biomimicry 3.8 no Brasil – pioneira ao trazer a Biomimética ao País). Graduada em Engenharia de Produção-Mecânica, certificada Especialista em Biomimética pelo Biomimicry 3.8 (EUA) e Mestre em Engenharia de Produção e Sistemas, já realizou workshops, cursos e palestras no Brasil e no exterior. Dentre seus projetos na área estão um novo processo sustentável de injeção a frio com luz UV, indicadores ambientais industriais baseados nas sequoias e um labirinto sensorial baseado nos supersentidos dos animais.

 

Fotos: 1. iStock/DiyanaDimitrova | 2. iStock/WebAkela | 3. iStock/PeterPolcz
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